Deixo disponibilizado o Prefácio do livro que será lançado em outubro, demorou, mas ficou pronto! Espero que o Prefácio cumpra a sua função e motive a leitura...
um abraço a todos.
REIS, Alexandre H. Vita - breves pensamentos sobre a vida e a morte , Belo Horizonte, Mundo de Cetim, 2007.
Prefácio
I
As palavras que caem em suas mãos, caro leitor, são frutos da impertinência. Somente assim posso conceber o que é apresentado aqui. A seriedade com a qual se abre esse pequeno volume, quando se expõem temas de suma importância, sem com isso garantir, talvez, a capacidade do autor em digerir refeição tão lauta, não parece ser a seriedade dos homens que fazem da filosofia uma profissão. O leitor sisudo pode aqui se queixar da falta de academicismo ou da proximidade excessiva entre as asserções e o próprio gosto do autor, e certamente não será encontrado aqui mais do que pode comportar um aforismo. A seriedade do aforismo está em aceitar o riso, em aceitar a possibilidade de se contradizer e de rir de si mesmo. Não lhe apresento, portanto, meu caro amigo, um tratado sobre a vida e a morte, mas sentenças nas quais elas se tornam objeto de uma profunda reflexão: não se assuste, no entanto, se muitas vezes tais reflexões encontrarem o sentido de profundidade na própria superfície. É que o tema aqui tratado não permite um longo discurso: se algum dia se disse uma palavra verdadeira sobre a vida ou sobre a morte, tal palavra feriu um princípio elementar: tais verdades, ao serem ditas, tornam-se mentiras, isso porque a linguagem não é o lugar da verdade, mas sim das simulações e das representações. E a representação é, por excelência, uma atriz talentosa.
O propósito desse opúsculo, repito, é impertinente. E assim o é porque não se deve falar sobre a morte ou sobre a vida. Vive-se e morre-se. Mas a prática do filósofo é, muitas vezes, pensar o absurdo. E suponho que a morte seja mesmo uma dessas mulheres difíceis, que não caem nos gracejos do galanteador. O homem contemporâneo, dotado de uma racionalidade instrumental capaz de pôr o próprio planeta a seu serviço, já não é mais capaz de seduzir a morte, de atraí-la para sua sabedoria de vida, para seu saber-viver-bem: faltam-lhe elogios e gracejos capazes de conquistá-la. A morte, ignora o homem de nossos tempos, só tem olhos para a vida, e os homens têm gastado um bocado de suas energias pensando em como satisfazer sua vontade de poder. O animal racional, bípede implume, é um escravo de seus desejos. A morte, digo isso apenas em voz baixa, é o veneno dos desejos. E é esse veneno que proponho oferecer ao pensamento, pois pensar é, para o filósofo, a lenha que move sua vida. O veneno, no entanto, se converterá em água. A morte, que à primeira vista pode significar o carvão do pensamento, torna-se abrasiva quando tomada por ele, que exige sempre que seu objeto preste contas à razão e ao exercício da razão.
Pensar é sempre um exercício que exige um tratamento da morte. Só deixamos de pensar na morte, dizia mesmo Marcel Conche, quando deixamos de pensar. E pensar a morte é pensar o não-objeto, pensar o obscuro, quando a luminosidade da razão vai se acasalando com as trevas…
II
As presentes páginas ¾ que um espírito insolente exigiu extrusar, extraindo de si mesmo o agradecimento à tradição ¾ , pretendem justificar a liberdade que o autor tomou para si, permitindo se distanciar de seu tempo, numa clássica impertinência de juventude, para que pudesse enxergar o mais humano de todos os problemas, que dá à própria condição humana o seu sentido e identidade existenciais: a morte define a própria vida do homem.
O leitor que, deitado em sua cama, a fitar o teto, já tenha se perguntado sobre o significado da vida e que já tenha se estremecido diante da possibilidade da morte, talvez encontre aqui sentenças que lhe caibam no espírito. O que significa morrer? Quem morre? Talvez a tradição filosófica possa apresentar algumas palavras a esse problema, e talvez ela possa nos emprestar suas ferramentas para criticar suas próprias respostas, suas exposições. Pois, se me lembro bem das lições do mestre, José Henrique Santos, é sempre com o aprendizado da tradição que aprendemos a habilidade da crítica, submetendo-a ao seu próprio tribunal.
O contra-senso de se pronunciarem palavras quando se pede apenas o silêncio, contudo, permanece em cada linha das páginas que se seguem. Mas o que importa realmente a coerência? Não é, no final das contas, um imenso contra-senso falar em contra-sensos? O silêncio só refuta a si mesmo. Foi justamente o desprendimento da língua altiva que levou muitos homens e mulheres a dizerem aquilo que nos era necessário ouvir. Um barulho prenhe de significados, abala a sensatez do silêncio. Um barulho necessário.
Às perguntas levantadas na horizontalidade da impertinência de se fitar o teto, soma-se ainda uma outra que me parece ainda mais desafiadora: é possível pensar o significado da morte? Parece ser esse o propósito impertinente do qual se falava antes. A resposta a essa pergunta será aqui dada positivamente, desde que se tenha claro que esse significado não será descoberto, mas sim inventado, criado, elaborado pela arte de pensar. O problema aqui pensado não é, contudo, sobre a possibilidade da morte, mas sobre a possibilidade de se dar sentido à vida. A vida, aliás, pode mesmo morrer? Ou apenas os seres viventes morrem? Por que o espanto sempre se faz presente na face daquele que presencia o desaparecimento de um ser vivo como se, pela primeira vez, ocorresse tal acontecimento no mundo? Por que a morte é sempre familiar e, ao mesmo tempo, sempre algo estranho para nossa consciência? A minha morte será sempre algo único e inimitável? A morte de outrem nunca é trágica e pode ser estudada do ponto de vista das ciências médicas, sociais, etc, e traz uma objetividade que impede a tragédia. E já a morte do outro, do amigo, do irmão, está próxima: já não é estranha: é quase um golpe trágico que se afirma em nossa própria consciência.
III
Aqui se apresenta uma interrogação que se direciona ao próprio leitor, uma interrogação que procura abalar qualquer certeza: a vida que você vive, meu amigo, caminha necessariamente para a morte. “A morte”, dizia Emil Cioran, “é a coisa mais segura e firme que a vida inventou até agora.” Quantas vezes paramos no turbilhão dos acontecimentos de nossas vidas modernas para pensar seriamente sobre isso? Seria essa a mais infalível das certezas? Pois muito bem, se a resposta a essa pergunta for positiva, interroguemo-la, pois assim se faz necessário. Qual é a concepção de vida que você possui, meu caro leitor, e qual sua expectativa da morte? Como a concebe? Falando mais seriamente: a vida e a morte seriam assim tão díspares? O esterco mal-cheiroso não faz brotar no quintal o aroma inconfundível de uma flor de laranjeira? E quantas vezes não nos surpreendemos com a vida se desabrochando em lugares que, a não ser em nossa esperança, suscitaria apenas o silêncio mortal do inaudível? A vida não pressupõe, muitas vezes, o alimento colhido nas prateleiras geladas da morte? E qual é o alimento da morte? Convoco você, amigo leitor, a pensar o significado da vida ―, e a pensar o significado da morte. Quem morre? É possível a vida morrer? Ou a morte seria, em nosso caso, apenas de um corpo e de uma consciência individuais? É possível exercitar tais pensamentos?
IV
O livre pensamento aqui escrito não apresenta nenhuma teoria consistente, ou mesmo uma tese abissal sobre o problema da morte. Neste livro se acha, no entanto, um subsolo, um caminho que talvez tenha sido interrompido em nossos tempos, e por isso mesmo tenha se deslocado para debaixo de nossos pés, como o lençol freático no qual a água se acomoda tão divinamente, que nossas esperanças ainda se preenchem de um suspiro que nos anima, mesmo que nossos olhos percebam o quão cega é nossa inteligência prática para as questões mais importantes da vida sobre a terra. Não quero lhe convencer, meu paciente amigo, de nenhuma verdade, de nenhuma audaciosa busca de sentido, pois o caminho para a verdade, o caminho que leva a um preenchimento desse vazio que nossa época nos presenteou, só pode ser percorrido na companhia de si mesmo ¾ , como aquela imagem vinda do século XIX, em que o andarilho e sua sombra rumavam unicamente na companhia de bons e leves pensamentos. Ainda será necessário redescobrir o sentido do conselho délfico, o sentido daquele caminho que só pode ser percorrido na solidão, quando se é capaz de elevações que encontram a verdadeira linguagem do mundo, a verdadeira linguagem que repetidamente silencia a própria gramática.
Muitas vezes deparei com pensamentos sobre o problema da morte que me pareciam, era essa minha opinião, descabidos e artificiais, outros, no entanto, pareciam ter saído de mim mesmo, tal era minha identificação para com eles. Em muitos pensadores da tradição, a morte se apresenta como um pensamento vivo, como a luz que ilumina o próprio pensar, como se aquela velha afirmação de Platão, que afirma ser o início da filosofia o deixar admirar-se, pudesse ser agora refutada e, ao invés, devêssemos afirmar que a filosofia se principia com o perturbar-se. Mas, no final das contas, nossa maior admiração não se contrapõe definitivamente à angústia de não compreender o que poderia ser claro para nós. A admiração, no fundo, é um tipo de perturbação, mas um tipo passional e menos parcial, na medida em que nos projetamos mais ao objeto admirado do que a nós mesmos, ao passo que a perturbação, no sentido de uma perplexidade, é o afastamento do objeto em direção a um si mesmo.
V
Estes breves pensamentos sobre a vida e a morte, coletados mais em minha experiência de pensar do que em minhas pobres vivências, se é que é possível fazer tal separação, nada mais são do que uma perplexidade diante da morte, diante da consciência do limite, e da impossibilidade de se exprimir, em linguagem adequada, o que poderia haver para além desse limite, o que já se configuraria como objeto da Religião. A experiência mais importante, buscada por um Tolstói ou por um Wittgenstein, e que a tradição revela terem vivido um Joacob Boehme ou um San Juan de la Cruz, dificilmente pode ser comunicada. Kant demonstrara no século XVIII os limites da razão, ou, ao menos, os limites do conhecimento racional, excluindo da ciência as perguntas mais importantes. Pois, no final das contas, não parece ser aquela indagação de Tolstoi, o que devo fazer de minha vida?, a mais importante das interrogações? O que buscaram todos esses homens acima citados senão uma experiência que lhes pudesse responder a essa difícil questão?
A apresentação de meus pensamentos sobre a vida e a morte segue a linguagem do aforismo. Sendo assim, meu caro leitor, não apresento aqui conceitos que captem a essência de meus problemas. Não é um lançador de redes que aqui escreve. As redes, se as lanço, são para sentir por entre seus nós e losangos a textura da água, não para capturar o peixe. O aforismo sempre olha de perspectiva, é sempre expressão da doxa, da opinião, que recusa a seriedade do conceito, a linguagem profissional, acadêmica, científica. O subsolo que sustenta a superfície de meus pensamentos é, em verdade, uma suspeita. Uma perplexidade diante da banalidade da vida no século XXI. É esse o meu desespero. A morte diária, anunciada e presente em nossos lares, que invade a cada instante nossos olhos, parece ter perdido seu sentido-ritual. O próprio tempo, condição necessária à morte, tornou-se tempo de ponteiro. O próprio homem já não tem mais consciência de sua humanidade. Deus, que sustentou a cultura do Ocidente nos últimos milênios, parece ter sido interrompido pelo barulho das máquinas de nossa revolução industrial. E isso já há alguns séculos. Não seria agora o Homem, com sua técnica e domínio digital, a vítima mais recente dos tempos modernos? A necessidade de olhar para trás, para nossa história, e para adiante, para além de nós mesmos, não deve ser novamente objeto de nossos pensamentos? Paremos por um minuto, esqueçamos as obrigações de nosso dia-a-dia, de nossa vida aprisionada em seu tempo, para convocarmos ao combate, ainda que brevemente, esses pensamentos sobre a vida e a morte. Pois, ao final, não pensar a própria morte é sempre o verdadeiro significado de se estar morto.
Belo Horizonte, outono de 2007.
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