Creio que este pequeno parágrafo do meu mestre dá o que pensar sobre as nossas vidas contemporâneas:
“No mundo administrado, até mesmo as igrejas aprenderam a cobrar ingressos, sem os quais não se abrem as portas das salas interiores. Na falta de utopias disponíveis, sempre é melhor crer em algo, nem que seja no diabo, e fechar o corpo com o exorcismo adequado; como também é bom ler o horóscopo antes de sair e precaver-se de todos os males. Chega a ser conveniente renovar a cada semana a carga de fervor que os dízimos e os exorcismos propiciam, para que os bens de consumo caiam sobre nossas cabeças. O sucesso paga todas as graças alcançadas. Quando só as soluções importam, parece de bom aviso evitar toda questão inquietante a Eternidade, o Absoluto, o Inaudito que suscita mais dúvidas do que certeza. A cada dia basta seu cuidado.”
SANTOS, José Henrique, O trabalho do negativo, ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito, São Paulo, edições Loyola, 2007, págs. 21 e 22.
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