Home Data de criação : 07/02/15 Última atualização : 11/10/17 12:40 / 27 Artigos publicados

RESPOSTA À CRÍTICA DO LIVRO VITA  escrito em terça 15 abril 2008 18:47

Recebi um belíssimo presente no início deste ano, pena que somente agora pude realmente interromper minha jornada de trabalho, respirar, e apreciar o presente. Trata-se de uma crítica do livro Vita - breves pensamentos sobre a vida e a morte, que lancei no final do ano passado, escrita pelo Lúcio Emílio em seu riquíssimo blog Penetrália. O artigo é, em verdade, um convite ao debate, com elogios dos quais não sou merecedor, e críticas que são bem-vindas por provocar o diálogo que move e faz renascer o espírito filosófico.

 

Não me surpreende que minha primeira crítica tenha comparado meu livro com o estilo de Nietzsche e que tenha respirado ali um ar pró-vindo do século XIX. Talvez este seja o século do qual mais me influencio, com o qual mais dialogo. A provocação da clonagem do estilo é bem humorada, bem informada, e alimenta uma boa discussão. Agradeço imensamente ao Lúcio por isso. Eu diria, no entanto, que Nietzsche não é a única influência na parte estrutural de meu livro. Incluiria aí um Schopenhauer, um La Rochefoucauld, um Pascal, um La Bruyère, talvez Heráclito e até mesmo o impressionante Aníbal Machado. Mas, digamos, meus escritores prediletos não escreveram apenas aforismos, nos legando um estilo que muitas vezes se apresenta ou experimenta outras tantas formas de expressão.

 

O estilo aforismático não foi escolhido devido à leitura desses grandes mestres da pena, mas sim pelo objeto do qual se escolheu tratar. Sempre me pareceu um contra-senso falar sobre a morte. Mas, digamos, esse problema não me deixou em paz um minuto sequer em minha formação filosófica. Não cabe aqui, nem mesmo cabe em mim, fazer uma auto-biografia, mas, digamos, esse é um problema que sempre habitou minha casa. Talvez eu tenha escolhido a filosofia, na insensatez da adolescência, apenas para lidar com o problema da morte. Talvez esta seja uma verdade para a qual ainda não abri os olhos. E talvez a morte tenha me conduzido ao contra-senso de não me calar diante dela, que insistiu em bater à porta de minha casa por três vezes. Não é o lugar nem a idade para uma autobiografia. Quero apenas com isso dizer que o tema não foi "escolhido" propriamente, mas talvez imposto pelas terríveis e admiráveis Euríneas, e o aforismo me pareceu ser o estilo mais apropriado pela recusa da linguagem conceitual ou sistemática, uma vez que entendo que a complexidade do tema não cabe nas roupagens de um conceito.

 

Meu caríssimo Lúcio Emílio pode aqui me dizer, e com razão, que essa tese é propriamente nietzscheana, uma vez que a preocupação com o modo de expressão esteve presente em toda a obra do filho do pastor alemão. Nietzsche teria escolhido o aforismo, por exemplo, em Humano, demasiado humano, numa tentativa de romper com a tradição filosófica mais sistemática e conceitual. Isso se recusarmos a tese de Eugen Fink que nos diz que ele só escreveu aforismos por que não tinha saúde para elaborar um texto de fôlego, devido às constantes crises de cefaléia causadas por sua doença (sífilis). Mas não me parece, contudo, que a originalidade seja algo possível ou mesmo desejável. O nietzscheano Heidegger nos legou um aforismo que carrego comigo, como se este aforismo revelasse para mim uma verdade na qual teimo em acreditar: Danken ist denken! Pensar é agradecer! E com isso entendo que qualquer consciência filosófica não surge do nada, não surge sem um diálogo com os grandes mestres e com os amigos, que sempre proporcionam a arte de pensar. E aqui faço um agradecimento público ao meu grande amigo Ramon Maia e ao brilhante (o blog Penetrália justifica o adjetivo) Lúcio Emílio. O primeiro encorajou-me ao debate, ao aceitar publicar meu livrinho; o segundo deu-a honra do debate.

 

Gostaria de fazer uma defesa do meu infortunado aforismo 144. Para tanto, cito o texto do Lúcio que já traz o pobre fragmento:

 

“O outro ponto problemático foram alguns elogios a Hitler no aforisma número 144:

Comércio exterior. A Alemanha teve o seu Führer na desastrosa figura de Hitler, que era astuto, relativamente inteligente, mas não auto-suficiente: os Estados Unidos souberam tirar proveito deste fato, aumentando seu poder econômico sob as máscaras de sua propaganda anti-hitlerista e emprestando suas admiráveis maquininhas para a contabilidade e reconhecimento dos judeus (REIS, 2007, p. 79).”

 

Penso que Hitler foi notável unicamente em seu uso da razão instrumental, pois conseguiu controlar os impulsos de sua natureza para a destruição durante relativamente muito tempo, o tempo de sua carreira política: pior para a Alemanha. No fim das contas, fez com a Europa o que fez com sua prima Geli Raubal, quem sabe seu único amor heterossexual: levou-a ao suicídio. A Europa Unida deve a ele sua fraqueza, sua dependência em relação aos Estados Unidos.”

 

        Aqui podemos ver a riqueza do estilo aforismático: ele pode ser lido de diversas perspectivas, não apenas de uma. Por isso tal estilo foi escolhido para se falar da vida e da morte. “O sentido se constrói pelo leitor”, dizia-me meu grande amigo e editor, Ramon Maia. E este sentido, o que vê no aforismo 144 elogios a Hitler, foi criado pela crítica do Lúcio. Vejamos se consigo contrapor a esse olhar um outro possível. Comércio exterior. Assim se intitula o aforismo, dizendo em seguida que Hitler foi “astuto”, a qualidade da raposa elogiada pelo divino Maquiavel, “relativamente inteligente”, o que não me parece propriamente elogioso e, finalmente, “não auto-suficiente”, o que leva as afirmações seguintes no aforismo. Mas, de quais afirmações se trata? O aforismo apenas aponta, parecendo ocultar alguma informação.

 

        Sabemos hoje que, sobretudo com as afirmações de Edwin Black, que o Holocausto só foi possível, inteiramente, pela tecnologia criada por uma empresa americana, a IBM, que criou um sistema de cartões perfurados (que nós chamamos de “Hollerith” aqui no Brasil), usados pelo nazismo no reconhecimento e contabilidade dos judeus. O cartão continha o nome, o número da pessoa e um carimbo. É possível ver um destes cartões em um museu do Holocausto, em Washington. Os cartões possuíam de vinte a oitenta colunas em dez ou mais linhas, que possibilitavam uma grande diversidade de configurações. Para quê serviam estes cartões? Para o senso racial, classificando cada alemão quanto ao nome, raça, endereço, religião, cor, local do trabalho, avós, bisavós, etc. Enfim, o sistema desenvolvido pela IBM e vendido aos alemães possibilitou o reconhecimento de 6 milhões de judeus, aproximadamente. Sabemos hoje que a IBM tinha exclusividade a da produção e comercialização tanto do cartão quando da máquina que fazia operar o cartão. Sem esta máquina, o número de judeus reconhecidos não passaria de 500 mil.  

        Assim, o aforismo, de forma a deixar para o leitor a possibilidade do sentido, provoca o olhar sob diversos ângulos. “Mas, por que não se informou no livro Vita, o que foi dito acima?” Por aqui, meus caros, o texto assumiria um estilo jornalístico ou denunciativo, o que não é nem um pouco defendido por mim, em se tratando de um livro de aforismos. Espero que com isso eu tenha esclarecido o ângulo com o qual olho o meu próprio aforismo, convencido de que não admiro Hitler, nem mesmo pela arquitetura (no sentido literal) criada pelo odor cadavérico de sua vontade de dominação. O Holocausto é um dos momentos mais incompreensíveis de nossa história, uma loucura coletiva para a qual até mesmo a inteligência de Heidegger se manteve cego, no período em que foi reitor da universidade de Berlim.

 

        No mais, acredito no velho ditado, que diz que “o advogado que faz sua própria defesa tem por cliente um idiota”. E cá estou eu, me defendendo uma interpretação possível. Mas, digamos, não é pela defesa que estou a escrever estas linhas, e sim para agradecer, embora tardiamente, a crítica ou homenagem que o Lúcio Emílio fez ao meu livro, cumprindo com um dos mais importantes mandamentos da vida colorida pela literatura ou pela filosofia. A crítica, dizia meu velho professor e mestre José Henrique Santos, não é apanágio de inimigos, mas é, antes de tudo, um dos deveres da amizade.

 

        O blog Penetrália: http://penetralia-penetralia.blogspot.com/

 

        A crítica do Lúcio:

  http://penetralia-penetralia.blogspot.com/2007/12/clone-se-si-mesmo-ou-breves-consideraes.html

 

        Sobre Edwin Black e as relações entre a IBM, O governo americano e o Holocausto, ver  http://www.edwinblack.com/

 

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Sobre nossas vidas contemporâneas  escrito em sexta 25 janeiro 2008 11:34

Creio que este pequeno parágrafo do meu mestre dá o que pensar sobre as nossas vidas contemporâneas:

 

“No mundo administrado, até mesmo as igrejas aprenderam a cobrar ingressos, sem os quais não se abrem as portas das salas interiores. Na falta de utopias disponíveis, sempre é melhor crer em algo, nem que seja no diabo, e fechar o corpo com o exorcismo adequado; como também é bom ler o horóscopo antes de sair e precaver-se de todos os males. Chega a ser conveniente renovar a cada semana a carga de fervor que os dízimos e os exorcismos propiciam, para que os bens de consumo caiam sobre nossas cabeças. O sucesso paga todas as graças alcançadas. Quando só as soluções importam, parece de bom aviso evitar toda questão inquietante  a Eternidade, o Absoluto, o Inaudito  que suscita mais dúvidas do que certeza. A cada dia basta seu cuidado.”

SANTOS, José Henrique, O trabalho do negativo, ensaios sobre a Fenomenologia do Espírito, São Paulo, edições Loyola, 2007, págs. 21 e 22.

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A ARTE DA SOLIDÃO  escrito em domingo 02 setembro 2007 16:45

            Ao convidar meus alunos de “Filosofia e Ética” a ouvir algumas lições de Sócrates, confrontei-me com uma sabedoria que se mostra demasiado simples: o que temos a aprender verdadeiramente com nós mesmos? O que tenho entendido, nestes primeiros dias de setembro, é que o retorno a si mesmo, o voltar o olhar para cada um de nós, é tarefa penosa que revela um bocado daquilo que sempre permanece esquecido em nosso dia-a-dia. Não compreendemos verdadeiramente quem somos se não experimentamos a solidão. E o que é mais difícil de afirmar é a necessidade de que devemos estar a sós em meio a uma multidão que cega nossos olhos para uma interioridade que, temo, está desaparecendo em meio a um mundo cada vez mais acelerado e mais convidativo para o entretenimento. Creio, assim, que o entretenimento é o grande flagelo de nossos tempos modernos. Com nossa inteligência dispersa em uma série de problemas sociais e de prazeres coletivos, acabamos de olhos bem fechados para nós mesmos.

        Sócrates, o velho tagarela que sempre interrogava seus compatriotas sobre a verdade de seus conhecimentos, parece ter deixado algumas lições imprescindíveis para a verdadeira sabedoria: coloca-te sob suspeita! Mas, o que este duvidar de si mesmo pode nos dar? Quem está, hoje, dois mil e quatrocentos anos após a sua morte, disposto a abrir mão de todo prazer imediato, de todos os convites que o mundo moderno tem a nos ofertar, para se voltar para si mesmo e buscar, a partir de si, um conhecimento que seja ao mesmo tempo simples e revelador?

         O nosso mundo parece ter transformado a arte em entretenimento: a arte já não é a revelação do espírito, e sim o seu mais fugaz passa-tempo. A música, que educada o espírito para o sentimento sublime, é hoje um barulho que agita o corpo, e torna a alma ainda mais estranha a si mesma. Nossa educação tem se tornado um treinamento que promete uma profissão, nada mais. Neste sentido, penso estarmos muito ocupados para compreender realmente o que Sócrates propunha: o conhecimento de si mesmo é a suprema tarefa capaz de libertar o homem de suas amarras sociais, capaz de libertá-lo da prisão das convenções sociais, esta falsa noção de verdade que tem se tornado a grande mentira das sociedades de massa. Rir de si mesmo, assim compreendo toda grande sabedoria. Mas o riso, insisto, este não se levar a sério, nos dá, primeiramente, a grande angústia que pode nos despertar para o pensamento. O riso nos dá, para além deste primeiro momento angustiante de se descobrir um ser vazio, toda possibilidade de alegria. É preciso, assim, inicialmente convidar-se a si mesmo para o debate, para a revisão dos próprios valores que guiam nossas ações, e, num segundo momento, quando se descobre a fragilidade de nosso próprio ser, enfrentar o mundo e suas mentiras para, no final, descobrir a verdadeira arte de se estar no mundo, a sublime e divina arte de sorrir!

          Sócrates, se levado a sério, deixará cada um de nós confuso e em estado de perplexidade, e é aí que se dá o início de uma aventura que poucos hoje em dia se dispõem a buscar: a aventura do pensamento, a arte de pensar.

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ÉLIDA, A DAMA DO MAR  escrito em quinta 30 agosto 2007 16:59

 

Sempre acreditei que a vida seria impossível sem a arte, sem uma criação de sentido que a envolva e a distancie de sua banalidade e mediocridade dadas. A vida só é possível se for reinventada longe de tudo que é natural, imediato e cansativo.

            Viver sem a arte é, assim, simplesmente viver. Felicitou-me muito que meu domingo tenha sido investido de um ar vindo do século XIX, frio, chuvoso que nos descansa do tropicalismo.  

Hoje reli pela terceira vez A dama do mar, uma belíssima peça do dramaturgo Ibsen, o  autor mais encenado na Europa do século XIX. Essa peça parece-me um drama em que todas as falas possuem um duplo sentido. A impressão que tenho é que existe sempre um duplo sentido: não me parece um drama realista, mas a máscara que acoberta a experimentação. Voltarei a isso. Depois de A casa de bonecas, Nora foi celebrada como a salvadora da sociedade, dando a Ibsen um lugar garantido na cabeceira das feministas. Haveria alguma ingenuidade nisso? Mas, poderíamos perguntar com o próprio Ibsen, o que aconteceria se Nora, ao invés do grande e sagrado sacrifício (ela é um personagem nietzscheano, um espírito livre, um espírito de afirmação) ficasse em seu lar? A resposta veio em Os espectros, em que encontramos a loucura como resultado da submissão ao marido e ao casamento já falido. Ibsen acreditava no compromisso que o indivíduo tinha com a verdade e com a sociedade.  Eis a tarefa de auto-realização. Eis, inclusive, a mais importante proposição filosófica, a única que realmente vale a pena mencionar sempre: conheça-te a ti mesmo.

 

A composição de A dama do mar agrada-me pela leveza, não apenas no pensamento e na descrição das imagens e das cenas, mas na composição de cada frase. Fiquei feliz ao reler e, como das outras vezes, lembrei-me da poetiza russa, na verdade mais alemã do que russa, Lou-Andréas Salomé. Lou é talvez a grande heroína da virada para o século XX. Nietzsche escreveu a ela: "trago comigo algumas coisas que não se podem ler em meus livros e para isso procuro a terra mais bela e mais fecunda". A paixão de Nietzsche experimentará o poder misterioso da mulher: "tive de silenciar porque falar de você me teria derrubado cada vez". A relação entre os dois é uma página importante para compreender forças poderosas. Ela escreveu: "Em alguma profundeza oculta de nossa natureza, estamos inteiramente distanciados um do outro. Na sua natureza, como numa velha fortaleza, Nietzsche tem muitos calabouços escuros e porões escondidos que não são percebidos num encontro superficial, mas que podem conter o mais pessoal dele. Estranho, recentemente me ocorreu, com súbita intensidade, que alguma vez poderemos até nos defrontar como inimigos." Os dois se distanciarão definitivamente. Parece que o impacto da separação marcará um caminho (deliberado?) de solidão. Nietzsche tornar-se-á um ermitão. Ela demonstrou-se mais forte do que ele, mais livre, mais leve, mais independente. Ele vagará solitário pelo mundo: sobretudo pelas cidades italianas. Ela tornar-se-á o que ele vislumbrou em seu pensamento: um espírito livre.

           

O que mais me chamou a atenção em Elida foi a compreensão de que havia uma necessidade de independência para afirmar a sua escolha livre. Renunciar ao casamento, pedir o divórcio para realmente escolher livremente. Eis a grandeza de Elida. Pouco importa o que ela escolherá: o misterioso estrangeiro, que atrai e apavora, que seduz pela proximidade, pela distância, pela ameaça que propõe a quebra da banalidade, ou a singela descoberta de que a amor pode se dar pela tranqüilidade, pela descoberta da simplicidade que revela um sentimento que, longe da grandeza poética, pode ser verdadeiro na banalidade do dia-a-dia. Pouco importa tudo isso. O que importa, o que devemos aprender com a dama do mar, é que o desejo deve ser afirmado a cada dia. A independência é a única possibilidade de afirmação do desejo. 

           

Teria Elida renunciado ao seu desejo? A afirmação de que a liberdade é imprescindível para a escolha, isso me pareceu a mais difícil de todas as afirmações. Lou-Andreas Salomé representa a possibilidade de mudança. E Elida? Não representa a mesma coisa? Ou estaria a mudança apenas na aceitação do estrangeiro? Elida descobre, ao meu ver, que a grande mudança está em quebrar seus laços com o passado, com o sublime que a ameaça no presente. Ela nunca mais será a mesma: se se esconde um retorno à civilização em sua escolha, parece-me uma afirmação interessante, mas ela não pode nos deixar cegos para o outro ponto de vista: Elida descobriu a simplicidade do amor, não como a aceitação do grandioso, do sublime, mas como a novidade possível da afirmação de seu destino. Ela aceitou a sua vida, e isso é a grande mudança que a tornará uma grande mulher. Acredito, assim, que conseguimos ver coisas diferentes e importantes em nossas leituras. A negação do desejo? A afirmação do desejo? Numa palavra eu diria, a independência de espírito. É tudo.

Alexandre.

 

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VITA - breves pensamentos sobre a vida e a morte  escrito em quinta 10 maio 2007 15:55

     Deixo disponibilizado o Prefácio do livro que será lançado em outubro, demorou, mas ficou pronto! Espero que o Prefácio cumpra a sua função e motive a leitura...

um abraço a todos.      

REIS, Alexandre H. Vita - breves pensamentos sobre a vida e a morte , Belo Horizonte, Mundo de Cetim, 2007. 

 

Prefácio

I 

             As palavras que caem em suas mãos, caro leitor, são frutos da impertinência. Somente assim posso conceber o que é apresentado aqui. A seriedade com a qual se abre esse pequeno volume, quando se expõem temas de suma importância, sem com isso garantir, talvez, a capacidade do autor em digerir refeição tão lauta, não parece ser a seriedade dos homens que fazem da filosofia uma profissão. O leitor sisudo pode aqui se queixar da falta de academicismo ou da proximidade excessiva entre as asserções e o próprio gosto do autor, e certamente não será encontrado aqui mais do que pode comportar um aforismo. A seriedade do aforismo está em aceitar o riso, em aceitar a possibilidade de se contradizer e de rir de si mesmo. Não lhe apresento, portanto, meu caro amigo, um tratado sobre a vida e a morte, mas sentenças nas quais elas se tornam objeto de uma profunda reflexão: não se assuste, no entanto, se muitas vezes tais reflexões encontrarem o sentido de profundidade na própria superfície. É que o tema aqui tratado não permite um longo discurso: se algum dia se disse uma palavra verdadeira sobre a vida ou sobre a morte, tal palavra feriu um princípio elementar: tais verdades, ao serem ditas, tornam-se mentiras, isso porque a linguagem não é o lugar da verdade, mas sim das simulações e das representações. E a representação é, por excelência, uma atriz talentosa.

              O propósito desse opúsculo, repito, é impertinente. E assim o é porque não se deve falar sobre a morte ou sobre a vida. Vive-se e morre-se. Mas a prática do filósofo é, muitas vezes, pensar o absurdo. E suponho que a morte seja mesmo uma dessas mulheres difíceis, que não caem nos gracejos do galanteador. O homem contemporâneo, dotado de uma racionalidade instrumental capaz de pôr o próprio planeta a seu serviço, já não é mais capaz de seduzir a morte, de atraí-la para sua sabedoria de vida, para seu saber-viver-bem: faltam-lhe elogios e gracejos capazes de conquistá-la. A morte, ignora o homem de nossos tempos, só tem olhos para a vida, e os homens têm gastado um bocado de suas energias pensando em como satisfazer sua vontade de poder. O animal racional, bípede implume, é um escravo de seus desejos. A morte, digo isso apenas em voz baixa, é o veneno dos desejos. E é esse veneno que proponho oferecer ao pensamento, pois pensar é, para o filósofo, a lenha que move sua vida. O veneno, no entanto, se converterá em água. A morte, que à primeira vista pode significar o carvão do pensamento, torna-se abrasiva quando tomada por ele, que exige sempre que seu objeto preste contas à razão e ao exercício da razão.

             Pensar é sempre um exercício que exige um tratamento da morte. Só deixamos de pensar na morte, dizia mesmo Marcel Conche, quando deixamos de pensar. E pensar a morte é pensar o não-objeto, pensar o obscuro, quando a luminosidade da razão vai se acasalando com as trevas… 

 

 II

               As presentes páginas ¾ que um espírito insolente exigiu extrusar, extraindo de si mesmo o agradecimento à tradição ¾ , pretendem justificar a liberdade que o autor tomou para si, permitindo se distanciar de seu tempo, numa clássica impertinência de juventude, para que pudesse enxergar o mais humano de todos os problemas, que dá à própria condição humana o seu sentido e identidade existenciais: a morte define a própria vida do homem.

             O leitor que, deitado em sua cama, a fitar o teto, já tenha se perguntado sobre o significado da vida e que já tenha se estremecido diante da possibilidade da morte, talvez encontre aqui sentenças que lhe caibam no espírito. O que significa morrer? Quem morre? Talvez a tradição filosófica possa apresentar algumas palavras a esse problema, e talvez ela possa nos emprestar suas ferramentas para criticar suas próprias respostas, suas exposições. Pois, se me lembro bem das lições do mestre, José Henrique Santos, é sempre com o aprendizado da tradição que aprendemos a habilidade da crítica, submetendo-a ao seu próprio tribunal.

             O contra-senso de se pronunciarem palavras quando se pede apenas o silêncio, contudo, permanece em cada linha das páginas que se seguem. Mas o que importa realmente a coerência? Não é, no final das contas, um imenso contra-senso falar em contra-sensos? O silêncio só refuta a si mesmo. Foi justamente o desprendimento da língua altiva que levou muitos homens e mulheres a dizerem aquilo que nos era necessário ouvir. Um barulho prenhe de significados, abala a sensatez do silêncio. Um barulho necessário.

              Às perguntas levantadas na horizontalidade da impertinência de se fitar o teto, soma-se ainda uma outra que me parece ainda mais desafiadora: é possível pensar o significado da morte? Parece ser esse o propósito impertinente do qual se falava antes. A resposta a essa pergunta será aqui dada positivamente, desde que se tenha claro que esse significado não será descoberto, mas sim inventado, criado, elaborado pela arte de pensar. O problema aqui pensado não é, contudo, sobre a possibilidade da morte, mas sobre a possibilidade de se dar sentido à vida. A vida, aliás, pode mesmo morrer? Ou apenas os seres viventes morrem? Por que o espanto sempre se faz presente na face daquele que presencia o desaparecimento de um ser vivo como se, pela primeira vez, ocorresse tal acontecimento no mundo? Por que a morte é sempre familiar e, ao mesmo tempo, sempre algo estranho para nossa consciência? A minha morte será sempre algo único e inimitável? A morte de outrem nunca é trágica e pode ser estudada do ponto de vista das ciências médicas, sociais, etc, e traz uma objetividade que impede a tragédia. E já a morte do outro, do amigo, do irmão, está próxima: já não é estranha: é quase um golpe trágico que se afirma em nossa própria consciência.

 

 III

  Aqui se apresenta uma interrogação que se direciona ao próprio leitor, uma interrogação que procura abalar qualquer certeza: a vida que você vive, meu amigo, caminha necessariamente para a morte. “A morte”, dizia Emil Cioran, “é a coisa mais segura e firme que a vida inventou até agora.” Quantas vezes paramos no turbilhão dos acontecimentos de nossas vidas modernas para pensar seriamente sobre isso? Seria essa a mais infalível das certezas? Pois muito bem, se a resposta a essa pergunta for positiva, interroguemo-la, pois assim se faz necessário. Qual é a concepção de vida que você possui, meu caro leitor, e qual sua expectativa da morte? Como a concebe? Falando mais seriamente: a vida e a morte seriam assim tão díspares? O esterco mal-cheiroso não faz brotar no quintal o aroma inconfundível de uma flor de laranjeira? E quantas vezes não nos surpreendemos com a vida se desabrochando em lugares que, a não ser em nossa esperança, suscitaria apenas o silêncio mortal do inaudível? A vida não pressupõe, muitas vezes, o alimento colhido nas prateleiras geladas da morte? E qual é o alimento da morte? Convoco você, amigo leitor, a pensar o significado da vida ―, e a pensar o significado da morte. Quem morre? É possível a vida morrer? Ou a morte seria, em nosso caso, apenas de um corpo e de uma consciência individuais? É possível exercitar tais pensamentos? 

 

IV 

 O livre pensamento aqui escrito não apresenta nenhuma teoria consistente, ou mesmo uma tese abissal sobre o problema da morte. Neste livro se acha, no entanto, um subsolo, um caminho que talvez tenha sido interrompido em nossos tempos, e por isso mesmo tenha se deslocado para debaixo de nossos pés, como o lençol freático no qual a água se acomoda tão divinamente, que nossas esperanças ainda se preenchem de um suspiro que nos anima, mesmo que nossos olhos percebam o quão cega é nossa inteligência prática para as questões mais importantes da vida sobre a terra. Não quero lhe convencer, meu paciente amigo, de nenhuma verdade, de nenhuma audaciosa busca de sentido, pois o caminho para a verdade, o caminho que leva a um preenchimento desse vazio que nossa época nos presenteou, só pode ser percorrido na companhia de si mesmo ¾ , como aquela imagem vinda do século XIX, em que o andarilho e sua sombra rumavam unicamente na companhia de bons e leves pensamentos. Ainda será necessário redescobrir o sentido do conselho délfico, o sentido daquele caminho que só pode ser percorrido na solidão, quando se é capaz de elevações que encontram a verdadeira linguagem do mundo, a verdadeira linguagem que repetidamente silencia a própria gramática.

             Muitas vezes deparei com pensamentos sobre o problema da morte que me pareciam, era essa minha opinião, descabidos e artificiais, outros, no entanto, pareciam ter saído de mim mesmo, tal era minha identificação para com eles. Em muitos pensadores da tradição, a morte se apresenta como um pensamento vivo, como a luz que ilumina o próprio pensar, como se aquela velha afirmação de Platão, que afirma ser o início da filosofia o deixar admirar-se, pudesse ser agora refutada e, ao invés, devêssemos afirmar que a filosofia se principia com o perturbar-se. Mas, no final das contas, nossa maior admiração não se contrapõe definitivamente à angústia de não compreender o que poderia ser claro para nós. A admiração, no fundo, é um tipo de perturbação, mas um tipo passional e menos parcial, na medida em que nos projetamos mais ao objeto admirado do que a nós mesmos, ao passo que a perturbação, no sentido de uma perplexidade, é o afastamento do objeto em direção a um si mesmo.

 

 V 

                Estes breves pensamentos sobre a vida e a morte, coletados mais em minha experiência de pensar do que em minhas pobres vivências, se é que é possível fazer tal separação, nada mais são do que uma perplexidade diante da morte, diante da consciência do limite, e da impossibilidade de se exprimir, em linguagem adequada, o que poderia haver para além desse limite, o que já se configuraria como objeto da Religião. A experiência mais importante, buscada por um Tolstói ou por um Wittgenstein, e que a tradição revela terem vivido um Joacob Boehme ou um San Juan de la Cruz, dificilmente pode ser comunicada. Kant demonstrara no século XVIII os limites da razão, ou, ao menos, os limites do conhecimento racional, excluindo da ciência as perguntas mais importantes. Pois, no final das contas, não parece ser aquela indagação de Tolstoi, o que devo fazer de minha vida?, a mais importante das interrogações? O que buscaram todos esses homens acima citados senão uma experiência que lhes pudesse responder a essa difícil questão?

           A apresentação de meus pensamentos sobre a vida e a morte segue a linguagem do aforismo. Sendo assim, meu caro leitor, não apresento aqui conceitos que captem a essência de meus problemas. Não é um lançador de redes que aqui escreve. As redes, se as lanço, são para sentir por entre seus nós e losangos a textura da água, não para capturar o peixe. O aforismo sempre olha de perspectiva, é sempre expressão da doxa, da opinião, que recusa a seriedade do conceito, a linguagem profissional, acadêmica, científica. O subsolo que sustenta a superfície de meus pensamentos é, em verdade, uma suspeita. Uma perplexidade diante da banalidade da vida no século XXI. É esse o meu desespero. A morte diária, anunciada e presente em nossos lares, que invade a cada instante nossos olhos, parece ter perdido seu sentido-ritual. O próprio tempo, condição necessária à morte, tornou-se tempo de ponteiro. O próprio homem já não tem mais consciência de sua humanidade. Deus, que sustentou a cultura do Ocidente nos últimos milênios, parece ter sido interrompido pelo barulho das máquinas de nossa revolução industrial. E isso já há alguns séculos. Não seria agora o Homem, com sua técnica e domínio digital, a vítima mais recente dos tempos modernos? A necessidade de olhar para trás, para nossa história, e para adiante, para além de nós mesmos, não deve ser novamente objeto de nossos pensamentos? Paremos por um minuto, esqueçamos as obrigações de nosso dia-a-dia, de nossa vida aprisionada em seu tempo, para convocarmos ao combate, ainda que brevemente, esses pensamentos sobre a vida e a morte. Pois, ao final, não pensar a própria morte é sempre o verdadeiro significado de se estar morto.                                            

                                                      Belo Horizonte, outono de 2007.     

 

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